Máscaras cerimoniais do povo Apyãwa-Tapirapé, usadas em rituais e depois destruídas, circulam entre museus e vendas internacionais.
As máscaras cara-grande, criadas pelo povo indígena Apyãwa-Tapirapé do Mato Grosso, ganharam destaque mundial ao serem expostas em museus e comercializadas em leilões e plataformas digitais. Apesar de sua importância espiritual, versões adaptadas dessas peças são vendidas por valores que variam de US$ 600 a US$ 17 mil.
Originalmente, essas máscaras são elementos centrais dos rituais Apyãwa, usados para comunicação com espíritos ancestrais e forças sobrenaturais. Após os eventos, as máscaras sagradas são destruídas, reforçando seu caráter exclusivo e simbólico. No entanto, a partir dos anos 1960, começaram a surgir réplicas produzidas para o comércio, que preservam certas tradições, mas apresentam mudanças visuais significativas, como dimensões e cores alteradas.
A fabricação dessas versões comerciais surgiu como uma estratégia de subsistência para as famílias Apyãwa, em resposta à crescente demanda de turistas e colecionadores estrangeiros interessados em artefatos indígenas. Apesar disso, a venda de máscaras feitas com materiais provenientes da fauna nativa é proibida pela legislação brasileira desde 1967, e esses objetos constam na Lista Vermelha de Objetos Culturais Brasileiros em Risco, devido ao risco de tráfico ilícito.
As diferenças entre as máscaras originais e as comerciais vão além da estética. Enquanto as peças cerimoniais utilizam penas e elementos naturais ligados a inimigos tradicionais dos Apyãwa, as versões para venda utilizam materiais substitutos, como ossos de vaca e madeira, e técnicas como a tapiragem, que altera as cores das penas com pigmentos naturais. Essas adaptações refletem um esforço do povo indígena para proteger sua cultura e, ao mesmo tempo, dialogar com o mercado global.
Hoje, os Apyãwa enfrentam desafios como a pressão fundiária, invasões ilegais e o impacto das queimadas em seu território, que está entre os mais afetados do país. Em 2020, a população indígena era de 917 pessoas, divididas entre as Terras Indígenas Urubu Branco e Tapirapé/Karajá. A participação dos indígenas em exposições internacionais, como a recente mostra “Amazônia, Mundos Indígenas” na Alemanha, reforça a importância de reconhecer as máscaras não apenas como arte, mas como expressão viva de conhecimento e resistência cultural.
Além de museus brasileiros, como o MASP, as máscaras cara-grande fazem parte de acervos renomados no exterior, incluindo o Metropolitan Museum of Art em Nova York e o Museu do Quai Branly em Paris. O debate sobre a origem dessas peças e a repatriação de objetos culturais indígenas tem ganhado força, com o Brasil reivindicando a devolução de itens emprestados indevidamente, como uma máscara cara-grande retida na França desde 2009.
