Durante meses, uma jornalista usou óculos e colar com inteligência artificial que registram a rotina e interagem com o usuário.
Uma experiência inédita mostrou como a inteligência artificial vestível pode transformar a rotina, entre praticidade e invasão de privacidade. Durante meses, a repórter Carolina Cimenti usou dispositivos como óculos e um colar equipados com câmeras, microfones e softwares de IA que registram tudo ao redor e ainda oferecem interpretações e recomendações.
Esses aparelhos funcionam como uma extensão da memória, capturando conversas e momentos do dia a dia para gerar transcrições, resumos e até conselhos. Em uma situação, por exemplo, o colar gravou uma conversa em crioulo haitiano durante uma corrida de táxi e traduziu o diálogo. Em outra, a IA sugeriu ajustes na rotina de sono da filha da repórter após um voo conturbado.
Apesar dos benefícios, os dispositivos também apresentam limitações. A falta de conexão em áreas com sinal fraco prejudicou o uso da lista de compras por voz, e os óculos inteligentes tiveram dificuldades para pronunciar corretamente nomes de pontos turísticos em Nova York. Ainda assim, eles se mostraram úteis para registrar fotos e vídeos quando as mãos estavam ocupadas.
Além da conveniência, a tecnologia vestível abre caminho para maior autonomia em situações específicas. A atleta francesa Emmeline Lacroute, que é cega, utiliza óculos inteligentes para receber orientações em tempo real durante a escalada esportiva, melhorando seu desempenho e qualidade de vida.
Por outro lado, o avanço dos dispositivos com IA gera debates sobre privacidade e conforto social. Pesquisas indicam que apenas uma parcela da população se sente à vontade com essa tecnologia, e órgãos como o Tribunal Superior Eleitoral do Brasil já restringiram seu uso em ambientes sensíveis, como cabines de votação. Casos de gravações não autorizadas e o potencial para reconhecimento facial levantam preocupações sobre abusos e vigilância.
Além dos aspectos técnicos e éticos, especialistas alertam para o impacto da hiperconexão na saúde mental. A constante exposição a notificações e estímulos pode prejudicar o foco e o bem-estar, exigindo um equilíbrio entre o uso da tecnologia e a necessidade de pausas para estar presente no momento.
