Cada vez mais pessoas deixam empregos tradicionais para criar canais no YouTube usando inteligência artificial e buscam independência financeira.
Henrique Batista, de 36 anos, trocou o trabalho de entregador de hambúrguer por uma atividade totalmente diferente: produzir vídeos para canais “dark” no YouTube, que utilizam inteligência artificial (IA) para criar roteiros, narrações e imagens sem que o criador precise aparecer.
Morador de Paraopeba (MG), ele decidiu mudar de carreira após um dia difícil de trabalho sob chuva. Henrique investiu em um curso online de cerca de R$ 400, oferecido pelo youtuber Peter Jordan, que ensina como montar canais faceless, ou seja, sem mostrar rosto ou usar a própria voz, com auxílio de ferramentas de IA.
Com essa estratégia, Henrique passou a criar conteúdos variados, como histórias sobre civilizações antigas e temas bíblicos, mesmo sem conhecimento aprofundado, já que a inteligência artificial gera o material completo. A monetização vem da receita com anúncios exibidos nos vídeos, que varia conforme o público e número de visualizações.
Apesar do sucesso inicial, o crescimento desse tipo de canal gerou preocupações para o YouTube, que vem adotando medidas para desmonetizar conteúdos considerados de baixa qualidade, inautênticos ou potencialmente nocivos, principalmente os direcionados a crianças. Pesquisas indicam que uma parte significativa dos vídeos recomendados contém imagens geradas por IA, o que pode afetar a qualidade da plataforma.
A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado destaca que a promessa de ganhos fáceis com IA atrai muitos interessados, mas o caminho até a monetização é difícil e exige dedicação. Ela ressalta que a maioria desiste, e o sucesso é para poucos. Criadores como Tai Squinalli, que migrou para vídeos gerados por IA em espanhol, relatam jornadas intensas de trabalho, mas valorizam a flexibilidade e a autonomia que a atividade proporciona.
Além dos produtores, surgiu um mercado de cursos e mentorias que prometem ensinar a criar canais dark com IA, muitas vezes com slogans chamativos que incentivam a abandonar empregos tradicionais. Entre os principais nomes desse segmento está Arthur Diniz, que defende que a tecnologia reduz barreiras técnicas, mas reconhece que manter um negócio sustentável exige esforço contínuo.
Peter Jordan, referência entre os produtores brasileiros, afirma que a velocidade de produção é um dos pontos fortes desse modelo, mesmo que isso signifique aceitar erros nos roteiros gerados pela IA, pois o público valoriza principalmente o conteúdo e não a perfeição técnica.
Especialistas alertam para os riscos desse formato, como a propagação de informações falsas e a falsa autoridade que vídeos automatizados podem transmitir, especialmente para públicos vulneráveis. O YouTube reforça que conteúdos gerados por IA são permitidos, desde que sigam suas diretrizes de qualidade e transparência, e que o combate ao conteúdo nocivo é prioridade.
