Especialistas alertam que o estresse e o uso excessivo de celulares por adultos prejudicam as interações essenciais para o crescimento das crianças pequenas.
O desenvolvimento das crianças na primeira infância depende muito da qualidade das interações que recebem dos adultos ao seu redor. A confiança gerada nesses momentos é fundamental para que elas explorem o mundo, aprendam a falar, andar e se relacionar.
No entanto, o estresse acumulado e a distração provocada pelo uso constante de celulares têm reduzido a atenção dedicada a esses vínculos. Pais, mães e professores, muitas vezes cansados e sobrecarregados, acabam não conseguindo oferecer a presença emocional necessária para o crescimento saudável dos pequenos.
Quatro pilares para interações eficazes
Junlei Li, professor da Harvard Graduate School of Education, destaca que uma interação de qualidade entre adultos e crianças precisa conter conexão, reciprocidade, inclusão e oportunidade de crescimento. Cada um desses elementos contribui para a formação do cérebro e das habilidades sociais da criança.
Por exemplo, a conexão envolve estar verdadeiramente presente, olhando nos olhos e respondendo aos sinais da criança — algo prejudicado quando o adulto está distraído pelo celular. A reciprocidade exige trocas equilibradas, que podem ser interrompidas por notificações e mensagens. A inclusão significa perceber e envolver as crianças mais tímidas, evitando que elas se isolem, principalmente quando a tecnologia é usada como distração. Já a oportunidade de crescimento acontece quando o adulto oferece desafios adequados, sem tirar a autonomia da criança, algo que também é comprometido quando o celular se torna prioridade.
O impacto da ‘tecnoferência’ e o papel dos investimentos públicos
Pesquisadores chamam de “tecnoferência” as interrupções digitais que fragmentam a atenção compartilhada entre adultos e crianças. O problema não é o uso do celular em si, mas a forma como ele prejudica o ritmo das interações necessárias para o desenvolvimento cerebral.
Para minimizar esses efeitos, especialistas defendem políticas públicas que apoiem as famílias e os educadores. Licença-maternidade e paternidade, melhores condições de trabalho, formação continuada para professores e acesso a serviços de saúde são estratégias que ajudam a reduzir o estresse e aumentam a disponibilidade emocional dos adultos.
Juliana Prates, da Universidade Federal da Bahia, ressalta que cuidar da primeira infância também envolve cuidar de quem cuida das crianças. Assim, garantir apoio e recursos para pais e professores é essencial para que as crianças tenham a atenção e o estímulo que precisam para crescer de forma saudável.
Em resumo, a presença verdadeira e o envolvimento emocional dos adultos são insubstituíveis. Apoiar esses cuidadores é garantir que o desenvolvimento infantil siga seu curso natural, com interações que estimulem a confiança, a comunicação e o aprendizado.
