Tecnologia de monitoramento com inteligência artificial promete alertar sobre crimes antes que ocorram, mas especialistas alertam para riscos à liberdade individual.
Novos sistemas de câmeras de segurança equipados com inteligência artificial (IA) estão sendo usados para identificar comportamentos suspeitos e prever possíveis crimes antes que aconteçam. Essa tecnologia, conhecida como policiamento preditivo, analisa imagens em tempo real e emite alertas quando detecta padrões fora do comum, como uma pessoa parada por muito tempo em um local.
Ao transformar imagens em metadados numéricos, esses sistemas aprendem o que é considerado um comportamento normal em determinado ambiente. Quando algo foge dessa norma, o equipamento sinaliza a situação para operadores humanos, que decidem as ações a serem tomadas, como acionar a segurança privada ou a polícia.
Empresas como NoLeak, Actuate, AxxonSoft e Coram estão investindo nessa tecnologia para reforçar a segurança em condomínios, indústrias e outros locais, destacando ganhos na eficiência do monitoramento e na redução do esforço dos operadores. A NoLeak, por exemplo, afirma que seu sistema permite acompanhar até dez vezes mais câmeras com o mesmo número de funcionários.
Apesar dos avanços, especialistas manifestam preocupação com a falta de regulamentação e os riscos que a vigilância constante pode representar para os direitos dos cidadãos. Fernanda Rodrigues, do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS-BH), alerta que erros nesses sistemas podem impactar pessoas que não cometeram crimes, restringindo a liberdade de ir e vir.
Além disso, há dúvidas sobre a eficácia dessas ferramentas e o potencial de vieses que podem reforçar desigualdades, como já ocorreu em experiências internacionais. Nos Estados Unidos, o sistema PredPol foi criticado por direcionar a polícia a patrulhar predominantemente bairros de baixa renda e comunidades negras, o que levou ao seu cancelamento em 2020.
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) regula o uso de dados sensíveis, mas ainda não há normas específicas para o policiamento preditivo. Uma portaria recente do Ministério da Justiça permite o uso da IA pelas polícias, desde que haja supervisão humana. Um projeto de lei em tramitação no Congresso prevê regras para ferramentas de alto risco, incluindo avaliações de impacto e garantias contra discriminação e abusos.
